Na lista Unicamp-Esperanto,

http://groups.yahoo.com/group/unicamp-esperanto

onde muitos alunos de nossos cursos na Universidade Estadual de Campinas debatem temas relacionados ao Esperanto, surgiu em meados de 2004 uma discussão sobre a Interlingua, língua planejada da linha "naturalista", voltada para a fácil compreensão passiva pelo europeu bilíngüe médio (conhecimento de uma língua latina e de uma germânica). Alguns listaram argumentos disponíveis em sites pró-Interlingua, enquanto muitos outros comentaram e contra-argumentaram. Segue abaixo trecho de minha contribuição na época à discussão.

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Já cheguei a estudar um pouco sobre cada uma das outras planlingvoj nos meus primeiros anos de esperantista, e até achei a interlingua, por exemplo, uma língua interessante, sonora, etc. Porém a questão principal a ser avaliada é o foco: quais as características necessárias para uma língua poder ser realmente utilizada internacionalmente para qualquer propósito?

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bom, torcendo as páginas citadas e deixando cair as repetidas insinuações nas entrelinhas e afirmações diretas de que uma língua "naturalista" é "mais apropriada" que uma língua "esquemática" (como já citaram, faz-se necessária uma análise desses três termos), embora nenhuma argumentação sólida tenha sido apresentada, o que sobra?

>escrita e pronúncia etimológica?
voltamos àquela velha história: não tá no dicionário, não vale.

>aceitar irregularidades desnecessárias em nome de uma duvidosa naturalidade? será que naturalidade é um sinônimo de eurocentrismo ou um eufemismo para direito à preguiça do europeu médio? se é pra taxar algo de natural para a maior parcela da população mundial, é o Esperanto e não a interlíngua que merece o título. Além dos aspectos psicológicos [veja o livro O Desafio das Línguas, de Claude Piron], a regularidade/esquematismo do Esperanto está muito próxima da lógica do chinês, por exemplo. A diferença é que o primeiro a faz pelo uso de alfabeto e palavras enquanto o segundo por
ideogramas.

>se a interlíngua foi "tão" utilizada (conforme mencionado na página) em congressos, por que deixou de o ser? será que se descobriu de que só dava para usar passivamente, e que desse jeito era melhor usar o inglês mesmo?

>o fato de 3000 eruditos (poliglotas, muito provavelmente) terem optado pelo idioma naturalista, após um estudo profundamente detalhado de um texto de completíssimas cinco linhas (bom, acho que os métodos científicos exigiriam ter sido escolhida a tradução da frase "the quick brown fox jumps over the lazy dog" :-) ), não é de se estranhar. De fato, a variante esquemática é a menos óbvia das quatro, assim como o Esperanto não é óbvio à primeira vista (neste quesito até o espanhol e o italiano são mais fáceis para nós). Mas enquanto as línguas criadas para uso passivo ("naturalistas") são uma reta quase horizontal (seu conhecimento praticamente não progride desde a primeira vista), o Esperanto é em geral como uma exponencial (ou melhor, como as palavras novas aprendidas se situam no campo discreto, é como uma progressão geométrica. Qualquer um já percebeu isso), o que explica o fato também mencionado pelo Ismael quanto à maior facilidade do Esperanto mesmo para o ocidental (para o oriental nem se fala).

Por que não fizeram os tais três mil eruditos escreverem um artigo na língua como base para escolha? Do jeito que foi feito ficou parecendo essas enquetes de rua. Altamente científico.

Uma pergunta: será que os 3000 eruditos eram apenas europeus?

>no último parágrafo do texto utiliza-se o tradicional argumento que o trabalho de uma comissão de "especialistas" (e todos os sulcos e calos dos paradigmas a que estão acostumados) seria a priori melhor que o de uma pessoa que teve um "insight". Primeiro detalhe: Zamenhof não inventou o Esperanto, o iniciou. O Esperanto que temos hoje é resultado do uso da língua durante mais de um século. Em segundo lugar, não acho que exista base para tal comparação, pois exemplos em todas as áreas mostram que talentos únicos deram grandes contribuições ao avanço de suas áreas.

> sobre a discussão entre o natural e o esquemático...
prestem atenção neste tradicional artifício de dialética: afirma-se categoricamente que uma língua naturalista se preza mais que uma esquemática para o papel; enquanto as pessoas são levadas a pensar em termos do confronto das duas vertentes, a questão que não se deseja debater é: o que é natural?

(uma nota: na minha opinião o próprio Esperanto, em seu léxico, poderia ser ainda umas duas vezes mais esquemático do que é, por exemplo; nenhum demérito em não ser, apenas significa que o Zamenhof não extrapolou em tudo que poderia... :-) Entretanto o compromisso entre usos ativo e passivo atingiu um ponto excelente, otimizando o uso ativo sem sacrificar muito o passivo (basta aprender as regras básicas e tudo fica claro; não precisa ser óbvio à primeira vista). E nesse ponto, conforme Umberto Eco por exemplo mencionou em diversas ocasiões, o Esperanto é uma língua otimizada, que segue admiráveis critérios de economia e eficiência (seu foco está no uso e não na teoria):

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"O Esperanto não fracassou?"
Em fevereiro de 96, a rádio Paris Première entrevistou o linguista e erudito italiano Umberto Eco, autor de O Nome da Rosa, A Ilha do Meio do Mundo e Em Busca da Língua Perfeita, entre outros.

"...Estudei um pouco de todas essas utopias a respeito da criação de uma língua perfeita ou da original, a chamada língua de Adão, até aquelas a que chamam de universais, como é o esperanto, o volapük e outras, que não pretendem ser perfeitas, e sim línguas auxiliares.

Nessas ocasiões cheguei a estudar a gramática do esperanto para saber do que se trata. E cheguei a duas conclusões: ele é uma língua muito, muito bem elaborada. Do ponto de vista lingüístico, ele realmente segue critérios de economia (lingüística) e de eficiência admiráveis. Segundo, todos os movimentos em favor de línguas internacionais fracassaram, porém não o do esperanto, que permance unindo grupos de pessoas em todas as partes do mundo, porque por trás do esperanto existe um idéia, um ideal; pretendo que Zamenhof não apenas construiu um objeto lingüístico, mas por trás disso havia uma idéia (...) idéia de fraternidade, idéia pacifista - foram até perseguidos pelo nazismo e pelo stalinismo - que ainda mantém a comunidade dos esperantistas.

Não se pode dizer que ele fracassou. Mas é preciso dizer uma coisa: o motivo pelo qual uma língua triunfa é sempre indefinível".

http://www.aleph.com.br/kce/perg04.htm
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Então, onde estão a interlíngua, o volapük, o ido, o esperantido, o novial, o occidental, o basic english, o latino sine flexione, etc? Causar alguns arranhões ao _movimento_ esperantista (não ao Esperanto) foi o máximo que conseguiram (pois se preocupam mais em atacar o Esperanto que fazer algo), mas mesmo assim o Esperanto segue seu caminho incólume.

O site da interlingua menciona a falta de recursos para divulgar a interlingua, mas será que o Esperanto se encontra em situação melhor?

A diferença de divulgação entre Inglês e Esperanto deve ser da mesma ordem de grandeza daquela entre o Esperanto e todas as outras línguas planejadas juntas. Enquanto entre os dois primeiros há um abismo econômico e político, com o Esperanto e seus concorrentes há apenas a marcha da história, que apara as arestas e é dura para todos. O Esperanto só tomou porrada ao longo de todo o século XX, e mesmo assim chegou aonde chegou. O que dizer dos concorrentes? Será que se foi a "vontade de Deus" que elevou o
Esperanto por ele ter sido criado por um judeu, descendente do povo eleito, e dizimou os concorrentes? Ou será que não se quer admitir que o Esperanto foi o que ficou após a peneira dos anos, por mérito?

Em resumo, acho diversas línguas planejadas interessantes, porém a resposta a que cheguei (e a realidade dá respaldo a essa conclusão) é que o Esperanto é a que melhor atingiu os objetivos. E, o que é também importante, o movimento esperantista se preocupou em construir algo, enquanto os demais se preocuparam apenas em atacá-lo (por quê? será que queriam roubar os adeptos do Esperanto na impossibilidade de conquistar outros dentre os 5999 milhões de habitantes da Terra que não falam Esperanto?). Seguindo aquela máxima: "falem mal, mas falem de mim", pode-se dizer que o tiro saiu pela culatra... :-)

Jimes Vasco Milanez

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